A Federação Down, representada pela sua presidente Lenir Santos, participou ontem,  dia 21/03/19, da Conferência do Dia Internacional da Síndrome de Down em Nova York-EUA, organizado pela entidade DSI (Down Syndrome International) e ONU.

O evento teve como foco no conceito e a prática da educação plenamente inclusiva; programas inovadores que oferecem oportunidades para todas as pessoas, incluindo aqueles com síndrome de Down e; envolver as partes interessadas para divulgar a mensagem de que as pessoas com síndrome de Down devem ter oportunidades de educação.

A Conferência, que reúne pessoas com síndrome de Down, seus apoiadores e defensores, profissionais de educação e especialistas na área, o Governo e a ONU aconteceu também em Genebra-Suíça.

Lenir Santos, em sua participação, fez um breve relato da história da síndrome de Down no Brasil, as conquistas , políticas públicas e o que se espera do futuro. Confira sua fala no vídeo ou texto abaixo:

 

 

CONQUISTA, SIM; RETROCESSO NÃO: NINGUÉM FICA PARA TRÁS

Bom dia senhoras e senhores.

Agradeço a ONU por esse evento comemorativo do dia da pessoa com síndrome de Down e a oportunidade de estar aqui. Obrigada Down Syndrome International.

Agradeço a existência de minha filha Andrea pela oportunidade de ser uma pessoa com uma história para contar.

Gostaria, nesta data, de reproduzir os desejos e as esperanças das pessoas com síndrome de Down, reconhecendo os avanços alcançados nas três últimas décadas no Brasil, em sinergia com os demais países.

Sendo a deficiência o resultado da relação entre as características da pessoa e o meio em que ela vive, nosso papel é o de mudar esse meio para lhe propiciar oportunidades.

Se a história milenar nos mostra desde a cruel condenação de pessoas com deficiência à morte física; à morte de seu eu e de sua dignidade; à internação, preconceitos – hoje não mais é admissível tais barbáries pela consciência de que direitos são para todos e que diferenças individuais devem ser superadas pela garantia de oportunidades.

Foram os ventos dos direitos humanos que bateram às portas das Nações, após duas guerras mundiais, abrindo-as para permitir às pessoas com SD e demais deficiências, a consciência de si mesmas como sujeitos de direitos.

No Brasil não foi diferente; a partir dos anos 80, essa consciência de que ninguém deveria ficar para trás, levou famílias e sociedade a pressionarem o Poder Público para a adoção de políticas públicas, abrindo a escola para todos e todas.

A Constituição Brasileira de 1988 remou no barco da democracia e dos direitos humanos e garantiu às pessoas com síndrome de Down e demais deficiências, educação inclusiva, cotas no mercado de trabalho; adesão à Convenção da ONU; edição de política nacional da educação inclusiva e da Lei Brasileira de Inclusão, o Estatuto da Pessoa com Deficiência.

Não foram poucas as conquistas formais em três décadas, como também não foram poucas as frustrações pela desconformidade das realidades.

Mas a maior preocupação ocorreu há um ano atrás, ante ameaças de retrocesso – que confiamos não lograrão sucesso – como a volta da escola especial, a redução do benefício financeiro para o sustento das pessoas com deficiência pobres.

Sabemos que, neste exato momento, milhares de pessoas com síndrome de Down e demais deficiências estão sendo deixadas para traz, em especial as mais pobres, as miseráveis, as que vivem nas periferias das cidades, no isolamento da região Amazônica e outros locais de difícil acesso e muita pobreza. Sem escolas, sem consciência de seus direitos, sem representação comunitária, sem oportunidades, elas ficam para traz.

É isso que move a Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down a estar aqui neste dia fazendo um apelo às mentes e corações das pessoas, autoridades públicas, sociedade, para impedir hiatos na caminhada evolutiva rumo ao progresso material e imaterial das pessoas com síndrome de Down. A voz da Federação é o som de seus anseios, esperanças, angustias e sonhos, e que precisa ser ouvida e sentida.

Nosso apelo e reivindicação é de que Poder Público e a sociedade não deixem ninguém para traz porque retrocesso no campo dos direitos humanos implica risco à evolução da civilização em seu pacto com a dignidade e o direito a ter direitos e a vê-los realizados.

Pensamos que a sociedade não ousará compactuar com tais retrocessos e que todos, juntos, unidos nessa sinergia, não deixarão ninguém para trás.

Façamos disso uma realidade.

Obrigada.